Sábado, 30 de Janeiro de 2010
Por que um vereador de comunidade incomoda muita gente?
Hoje, sinto mais do que nunca a importância de ter um meio de comunicação em que posso relatar na íntegra os fatos que envolvem o meu nome, sem ter a frustração de ler e assistir apenas frases editadas ou pinçadas fora de contexto, que acabam não expressando o que realmente penso, acredito e luto.
A minha decisão de disputar o pleito de vereador surgiu não por vontade individual, mas por incentivo dos moradores da Rocinha, da qual eu fui presidente da Associação de Moradores, cansados de políticos que só frequentam a comunidade em época de campanha com falsas promessas.
Outro fator decisivo para que eu aceitasse esse desafio foram os inúmeros pedidos das mães e pacientes do Instituto de Audiologia Santa Catarina, centro de excelência em Caxias, onde os meus filhos gêmeos e deficientes auditivos se tratam. Senti na carne a necessidade de lutar por políticas públicas para esse segmento. Nesse Instituto, criei um forte vínculo com as pessoas que ali estavam quando nos unimos na defesa da continuidade daquele serviço prestado.
Assim foram construídas as vigas mestras que me sustentam até hoje e deram sentido para que eu entrasse na disputa de um cargo público: o abandono da comunidade e a negação dos direitos dos deficientes auditivos.
Quando me lancei candidato a vereador, senti uma reação imediata ao tentarem me estigmatizar e difamar com calúnias e falsas acusações. Fui capa dos principais jornais do país, falaram sobre mim em pleno horário nobre da TV e fui assunto das revistas de maior circulação. Chegaram ao absurdo de usar a ficha criminal de vários homônimos (pessoas com o mesmo nome) para que a opinião pública acreditasse que eu respondia a 22 anotações penais. Apesar de provar que não havia nenhuma acusação sobre mim, nada foi divulgado.
Toda esta campanha sistemática de desmoralização parte de uma elite que teve os seus interesses politiqueiros feridos quando a comunidade passou a enxergar que tem o direito não só de votar como também o de ser votado. Esse grupo foi o que sempre usou e ainda usa as comunidades como currais eleitorais, numa relação calcada pela tutela. Um país que conserva na sua memória 400 anos de escravidão, não é de se estranhar que mentalidades retrógradas e oportunistas acabem, ainda hoje, estipulando uma relação de casagrande e senzala com as comunidades.
Tenho a clareza de saber que todas essas calúnias e difamações não se referem ao indivíduo Claudinho. Tudo isso é uma reação para que não surja um novo contexto, com o rompimento dessa tutela. Personificam no meu nome a preocupação com o término dessas senzalas. Eles ainda mantêm o costume de chicotear o negro no tronco do terreiro para servir de exemplo para aqueles que queiram romper esse “status quo”.
Em diversos momentos, quando o chicote está muito violento, lembro do nosso querido presidente Lula, que se tornou um grande referencial não só para mim, como para todos os oprimidos e excluídos desse país. Sabemos o quanto a sua trajetória foi difícil e como foi sofrido conseguir romper o paradigma de um trabalhador ocupar um cargo antes só ocupado pela elite.
Questionam a quantidade de votos que eu obtive na Rocinha, fato que não consigo compreender, já que sou nascido e criado na comunidade e sempre tive ali uma grande visibilidade devido à minha carreira como jogador de futebol, sambista, líder comunitário e presidente da U.P.M.M.R (União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha), eleito com a maior votação da história da Associação. Seria de se estranhar se um favelado como eu tivesse conseguido uma grande expressão de votos de eleitores do asfalto. Seria como questionar o presidente Lula quando concorreu pela primeira vez à presidência da república e conquistou a maioria dos votos dos trabalhadores e nordestinos do país.
Gostaria também de esclarecer que nunca fui candidato único na Rocinha. Além de mim, quatro outros moradores também concorreram a uma vaga na Câmara dos Vereadores. Existem aproximadamente 45 mil eleitores na Rocinha e fui votado por 7 mil deles.
Tenho recebido inúmeros telefonemas e e-mails solidários e indignados com essa campanha difamatória que venho sofrendo. Agradeço a todos pelo carinho e queria também dizer que nada disso é surpresa para mim. Romper as barreiras do gueto e da segregação é ainda um grande desafio. A experiência já nos convenceu de que nada foi dado a classe trabalhadora de mão beijada, mas tudo (o pouco que temos) foi o prêmio de uma conquista.
Confiamos que a esperança vença o preconceito. Que Deus nos abençoe!
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